segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O preço


            Corte de cabelo, trinta e oito reais. Hidratação, sessenta. Coloração, setenta e cinco. Blindagem térmica, cento e trinta. Limpeza,  cento e vinte pilas. E aí, qual a sua sugestão?
          É simples, meu caro: Corte as pontas das minhas mágoas, estão difíceis de esconder. Hidrate a minha perseverança, tenho um longo caminho a percorrer. Colore de esperança o sangue que corre em minhas veias: a vida tem que ser renovada a cada dia. Blinde meus ouvidos e meu coração para que palavras ásperas não me tome de assalto. Faça também uma limpeza nos meus anseios. Os sentimentos? Deixe só os bons.
            - Feito isso, qual o preço a pagar?
            - Basta apenas perdoar.

Foi uma ideia que me sobrevoou a cabeça no momento em que lia a tabela de preços no salão de beleza.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Jovialidade


         Logo após ser servida no dia do meu aniversário por um banquete de livros da queridíssima Martha Medeiros, andei destacando alguns trechos que tocaram o meu íntimo. Se eu recomendo alguma obra dela? Todas. Bom apetite!
          A ênfase aqui está nas palavras que compõem o segundo parágrafo de uma de suas crônicas, escritas no livro Trem-Bala. Uma citação de citação: "Se uma mulher consegue manter o dom de ser velha quando jovem e jovem quando velha, ela saberá o que vem depois. A frase (...) faz todo o sentido, ao menos pra mim, que nasci com cem anos e venho regredindo desde então."
        Aos sete anos de idade, para fazer o trajeto para a escola, pegava duas conduções sozinha: a independência em miniatura. Aos quatorze, ao contrário das menininhas da minha idade, ansiava trabalhar e me auto sustentar. Na casa dos dezessete aparentava uma adolescente normal, mas nas veias corriam a caretice.
       Um convite para almoçar fora naquela época era um desacato. O término de um relacionamento, entrada VIP para noites insones. Um show de uma bandinha da moda, uma selvageria: salve-se quem puder. Um churrasco em família com direito a sessão de fotos, um ataque de nervos. Elogios eram recebidos como deboches: quem iria elogiar cabelos bem cuidados, rostinho de criança e corpictho esbelto? Na minha mente jurássica, ninguém, é claro.
        Hoje, após vinte e uma primaveras, as coisas estão melhorando. O índice  de estresse baixou. Encontro-me menos ranzinza em comparação aos anos dourados. Já tiro fotos com amigos e familiares às pencas. Procuro enxergar os fatos como experiências. As dramatizações, só uma vez ou outra. Quando carece.
       A jovialidade de espírito é um verdadeiro oásis.